Celebrado em 23 de fevereiro, o Dia Internacional da Ética convida à reflexão sobre os valores que sustentam sociedades justas. No Brasil, contudo, a data expõe um paradoxo: enquanto discursos políticos e institucionais enaltecem a integridade, a corrupção persiste como um câncer estrutural, minando a confiança nas instituições e aprofundando desigualdades.
Segundo o
Índice de Percepção da Corrupção (IPC) 2024 da Transparência Internacional, o
Brasil registrou 34 pontos e a 107ª posição entre 180 países. Trata-se da pior
nota e da pior colocação do país na série histórica do índice, iniciada em
2012.
O dado revela
não apenas a perpetuação de esquemas ilícitos, mas a normalização da
corrupção como parte do cotidiano. Operações como a Lava Jato, que há anos
expuseram redes bilionárias de desvio, não foram suficientes para alterar essa
percepção. Pelo contrário: a politização da justiça, o enfraquecimento de
órgãos de controle e a impunidade de figuras poderosas reforçam a ideia de que
a ética é um conceito flexível para elites.
A crítica
central reside na desconexão entre leis e práticas. O Brasil possui um
arcabouço jurídico robusto: Lei Anticorrupção, Lei da Ficha Limpa, Lei de Acesso à Informação, mas
sua aplicação é seletiva. Grandes corporações e políticos investigados
raramente enfrentam consequências concretas, enquanto cidadãos comuns são
penalizados por infrações menores.
Essa dualidade
alimenta o cinismo social: 83% dos brasileiros consideram a corrupção "um
problema grave", segundo o Barômetro Global da Corrupção (2023), mas
apenas 37% acreditam na eficácia de denúncias.
A corrupção também se entrelaça com desigualdades históricas. Desvios em obras públicas, por exemplo, privam comunidades periféricas de saneamento e educação, perpetuando ciclos de exclusão. Não por acaso, o IPC mostra que países com menor corrupção, como Dinamarca e Nova Zelândia, são também os mais igualitários.
Neste Dia Internacional da Ética, urge reconhecer que combater a corrupção exige mais que leis: demanda transparência radical, educação cívica desde a infância e pressão social constante. É preciso desnaturalizar a ideia de que "todo mundo rouba" e resgatar a ética como alicerce, não como retórica vazia. Enquanto a integridade for commodity de discursos, e não prática cotidiana, o Brasil seguirá tropeçando em sua própria hipocrisia.
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